Aquilo que nunca aconteceu

Às vezes penso que poderíamos simplesmente continuar conversando, assim, à distância. Conversas ocasionais, quase inocentes, que ao mesmo tempo nos protegeriam e nos aproximariam. Talvez, nesse processo, eu pudesse finalmente te conhecer de verdade e descobrir que não temos tanto em comum quanto imaginei. Quem sabe, depois disso, nos abandonaríamos ao esquecimento e seguiríamos nossas vidas tranquilas, talvez um pouco monótonas, mas com a certeza de que finalmente colocamos um ponto final em uma história que insiste em existir há mais de trinta anos.

Conversar não tira pedaço de ninguém. Não fere, não quebra promessas, não altera o rumo do mundo. É apenas conversa. Ainda assim, falar contigo tem um efeito curioso em mim: aquece meu coração. Faz com que eu me sinta viva e, por alguns instantes, me recorde de quem eu realmente sou.

Quando penso na nossa adolescência, inevitavelmente reescrevo a história. Dou novos contornos àquilo que poderia ter sido. Às vezes imagino que, se tivéssemos nos aproximado um pouco mais naquela época, talvez tudo já estivesse resolvido dentro de mim. Talvez essa lembrança não voltasse com tanta força, nem ocupasse um espaço tão grande na minha memória.

Reconheço que tenho certa tendência a fantasiar. Talvez eu nunca tenha amadurecido completamente no campo sentimental. Ou talvez seja apenas o resultado de uma vida em que o amor intenso — aquele que arrebata e transforma — nunca tenha realmente encontrado lugar. Sinto falta de romance. Minha alma sempre foi inclinada ao bonito, ao poético. Ainda que o tempo e as circunstâncias tenham endurecido um pouco minhas bordas.

Mesmo assim, às vezes sinto vontade de dar a essa história um desfecho verdadeiro. Real ou virtual, pouco importa. Gostaria apenas de compreender se aquilo que guardo com tanto cuidado na memória também existiu para você. Se foi recíproco. Se foi bonito. Se pertence apenas a mim ou se, de alguma forma, também é nosso.

Tenho a impressão de que essa história ainda não terminou. A vida costuma nos distrair com compromissos, responsabilidades e caminhos que parecem aleatórios, mas há algo nela que escapa à lógica comum. Algo que se manifesta em pequenos sinais, em coincidências quase imperceptíveis. E, de alguma forma, sinto que isso — esse sentimento sem nome — ainda existe.

Não sei explicar exatamente o que é. Talvez nem precise de definição. Basta saber que está ali. Que, em algum momento, também te tocou.

Às vezes penso que gostaria de analisar tudo isso com cuidado, como quem disseca uma lembrança antiga, até compreender cada detalhe. Talvez, ao ampliar todos os espaços dessa história, ela finalmente se dissolvesse e encontrasse seu fim.

O que sei é que não consigo reviver tudo isso sozinha, sabendo que, de alguma forma, também pertence a você. Se tantas vezes fomos síncronos em pensamentos e palavras, talvez essa memória também ainda encontre algum eco em você.

Não precisamos racionalizar tudo. Talvez possamos, por alguns instantes, permitir-nos pensar apenas em nós — ainda que apenas no plano das ideias. Afinal, o virtual quase não existe de verdade. E, se não existe, talvez também não carregue culpa ou dor.

Pensamentos não são matéria. Não podem ser vistos, nem tocados. Não interferem no mundo concreto.

Mas a saudade…
essa, sim, é real.

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